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Boa Vista - RR, 3 de setembro de 2026 as 00:22

Pão Araribóia completa 50 anos e vira patrimônio cultural

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Tradição familiar, memória e sabor de infância transformaram o pão em um dos símbolos afetivos da capital de Roraima

Há cinco décadas, o aroma de pão recém-assado faz parte da memória de gerações de moradores de Boa Vista. Agora, essa história ganhou reconhecimento oficial: o tradicional Pão Araribóia foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial de Boa Vista, preservando não apenas a receita, mas também o modo de fazer, a trajetória familiar e o vínculo criado com a população ao longo dos anos.

O reconhecimento oficial valoriza um dos sabores mais tradicionais da capital e reforça a importância das manifestações culturais que ajudam a construir a identidade do município.

A história começou ainda na adolescência de Araribóia Castelo, que entrou no ramo da panificação aos 16 anos. O trabalho, inicialmente simples, acabou se transformando em uma profissão para toda a vida.

“Eu era menino quando comecei a trabalhar na padaria. No início, eu abria o forno que assava os pães. Depois, o padeiro foi embora e eu fui fazer pão porque já tinha aprendido. Continuei trabalhando em muitos lugares e não parei mais.”

Na década de 1970, Araribóia conseguiu comprar o prédio onde mantém a tradição até hoje. Durante anos, a rotina começava ainda de madrugada, quando os pães eram preparados e assados para chegar frescos às casas dos clientes pela manhã.

“Assava pão de madrugada para entregar de manhã cedo nas casas dos clientes”, relembrou.

Tradição mantida pela família

Com o passar das décadas, a padaria deixou de ser apenas um negócio e passou a representar uma tradição familiar. As filhas de Araribóia assumiram parte das responsabilidades e continuam mantendo o cuidado com a produção.

Ana Rita Menezes, de 57 anos, conta que cresceu acompanhando os pais no trabalho e decidiu retornar a Boa Vista para ajudar a conduzir a padaria quando o pai já não conseguia mais assumir todas as funções.

“Fomos criados com ele e minha mãe trabalhando muito aqui na padaria. A gente acordava de manhã e já tinha cliente na porta de casa. Eu morava em Manaus quando voltei para assumir as responsabilidades da padaria, pois ele já não estava mais dando conta por causa da idade.”

Segundo Ana Rita, a tarefa é desafiadora, mas o apoio dos familiares e a relação construída com os clientes ajudam a manter o empreendimento em funcionamento.

“É uma função desafiadora, mas conto com o apoio da nossa família e o carinho dos clientes. Meu pai é muito querido”, destacou.

Pão que atravessou gerações

O Pão Araribóia também ganhou espaço na memória de moradores que cresceram nas proximidades da padaria. Para o autônomo Aldecival de Souza, o alimento está diretamente ligado às lembranças da infância.

Quando criança, ele morava ao lado da padaria e tinha o hábito de comprar o pão caseiro diariamente. Mesmo depois de se mudar para o bairro Cauamé, o costume permaneceu.

“Antes, a minha casa ficava aqui do lado da padaria. Então, todos os dias eu vinha comprar pão caseiro logo cedo. Hoje, moro no bairro Cauamé, um pouco mais longe, e continuo garantindo o meu pão.”

Para Aldecival, a permanência do modo tradicional de produção é justamente o que mantém vivo o significado do alimento.

“Por mais que os anos tenham passado, eles continuam com o processo natural, preservando a qualidade de sempre. Para mim, o pão tem gosto de infância”, contou.

Patrimônio Cultural Imaterial de Boa Vista

O reconhecimento oficial considera a importância do Pão Araribóia para a memória e a identidade cultural de Boa Vista. A declaração de patrimônio valoriza tanto o produto quanto os conhecimentos e práticas associados à sua produção.

Segundo a coordenadora do Patrimônio Cultural de Boa Vista, Carolina Albuquerque, a tradição apresenta características próprias e representa uma referência cultural para o município.

“O principal efeito do reconhecimento oficial é a questão do valor cultural do Pão Araribóia, porque ele é bem tradicional aqui na cidade. Isso ajuda a preservar a tradição e o modo de fazer o pão.”

Ainda de acordo com a coordenadora, a medida também contribui para ampliar a visibilidade da tradição e reforçar sua importância para a identidade cultural da capital.

“Dá visibilidade para o produto, para aquele espaço que é muito tradicional. Essa visibilidade reforça a importância da nossa identidade cultural em Boa Vista”, explicou.

Mais que pão, uma memória de Boa Vista

Ao completar 50 anos de história, o Pão Araribóia passa a representar oficialmente muito mais do que uma receita tradicional. É um exemplo de como costumes familiares, saberes transmitidos entre gerações e relações construídas com a comunidade podem se transformar em patrimônio cultural.

Em Boa Vista, o sabor que começou a ser produzido há décadas continua presente na mesa dos moradores e, agora, também ganha espaço oficialmente na história cultural da capital de Roraima.

Redação / SEMUC