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Boa Vista - RR, 15 de junho de 2026 as 14:57

Mudanças climáticas ameaçam produção e tradições de comunidades quilombolas

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Secas, enchentes e perda de produção: mulheres quilombolas alertam para impactos da crise climática

As mudanças climáticas já afetam diretamente o cotidiano de comunidades quilombolas em diferentes regiões do Brasil. A realidade foi compartilhada por lideranças reunidas durante o Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, realizado no Distrito Federal, onde a justiça climática se tornou um dos principais temas de debate.

Entre relatos de secas prolongadas, enchentes, perda de colheitas e dificuldades de acesso à água, mulheres quilombolas destacaram que os efeitos das alterações do clima ameaçam não apenas a produção agrícola, mas também tradições culturais e modos de vida preservados há gerações.

Agricultura familiar sofre com extremos climáticos

Na comunidade quilombola Nova Esperança, localizada em Baraúna, no Rio Grande do Norte, a agricultora Sueli Bessa relata que as mudanças no clima transformaram a paisagem da região.

Segundo ela, frutas que antes eram abundantes, como a goiaba, tornaram-se cada vez mais raras devido aos longos períodos de estiagem.

Além da escassez de água, as fortes chuvas também causam transtornos. As estradas de acesso à comunidade frequentemente ficam intransitáveis, dificultando o deslocamento dos moradores e o escoamento da produção agrícola.

A comunidade depende de um poço artesiano para abastecimento, mas a redução dos recursos hídricos tem tornado a situação cada vez mais desafiadora para as cerca de 70 famílias que vivem no local.

Mulheres lideram resistência nos territórios

As dificuldades enfrentadas pelas comunidades quilombolas motivaram a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) a lançar o livro “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima”.

A publicação reúne relatos e pesquisas sobre os impactos ambientais enfrentados por comunidades tradicionais em todos os biomas brasileiros.

A agrônoma e pesquisadora Fran Paula, responsável pelo estudo, destaca que as mulheres costumam ser as primeiras a perceber as transformações ambientais e, muitas vezes, as últimas a deixar os territórios afetados.

Segundo ela, além das denúncias sobre racismo ambiental e degradação dos territórios, o levantamento apresenta soluções e estratégias desenvolvidas pelas próprias comunidades para enfrentar os desafios climáticos.

Regularização fundiária é apontada como prioridade

Um dos principais pontos defendidos pelas lideranças quilombolas é a aceleração dos processos de regularização fundiária.

Para as comunidades, garantir o direito ao território é uma medida fundamental para fortalecer a proteção ambiental e ampliar a capacidade de adaptação às mudanças climáticas.

A coordenadora executiva da Conaq, Sandra Braga, afirma que a falta de titulação facilita conflitos e invasões por grandes empreendimentos agrícolas.

Ela cita como exemplo a Comunidade Quilombola Mesquita, em Cidade Ocidental (GO), onde famílias lutam para preservar áreas tradicionais de cultivo do marmelo, fruto que se tornou símbolo cultural e econômico da região.

Produções tradicionais ameaçadas

As mudanças climáticas têm colocado em risco produtos que fazem parte da identidade cultural de diversas comunidades.

Na Comunidade Quilombola Mesquita, produtores relatam redução na produtividade dos pomares de marmelo devido às estiagens mais frequentes e ao aumento das temperaturas.

Já na Comunidade Quilombola Divino Espírito Santo, conhecida como Divino Beiju, em São Mateus (ES), a produção de mandioca utilizada na fabricação artesanal do tradicional beiju também sofreu impactos.

Além dos efeitos climáticos, moradores denunciam a contaminação causada pelo uso de agrotóxicos em propriedades vizinhas, situação que ameaça tanto a produção agrícola quanto a saúde dos moradores.

Grandes empreendimentos também preocupam

O estudo apresentado pela Conaq aponta que diversos territórios quilombolas enfrentam pressões provocadas pela expansão de grandes empreendimentos econômicos.

Entre as atividades citadas estão projetos de mineração, exploração de petróleo, monoculturas e até mesmo usinas de energia eólica, que, apesar de serem consideradas fontes de energia limpa, podem gerar impactos ambientais e sociais nas comunidades tradicionais.

As lideranças defendem que qualquer iniciativa econômica deve respeitar os direitos territoriais e garantir a participação das comunidades nas decisões que afetam suas regiões.

Justiça climática e proteção dos territórios

Durante o encontro nacional, as mulheres quilombolas reforçaram que a discussão sobre mudanças climáticas não pode ser separada da proteção dos territórios tradicionais.

Para elas, assegurar a posse da terra, fortalecer políticas públicas ambientais e valorizar os conhecimentos ancestrais são medidas fundamentais para preservar culturas, garantir segurança alimentar e enfrentar os desafios impostos pelo aquecimento global.

Enquanto seguem lutando pela regularização de seus territórios, essas comunidades mantêm práticas sustentáveis que ajudam a conservar biomas, proteger nascentes e preservar a biodiversidade brasileira.

Fonte: Agência Brasil