Combates, retirada de combatentes curdos e tensões políticas após quase 14 anos de guerra reacendem incertezas no processo de transição síria.
O governo sírio retomou neste domingo (11) o controle total de Aleppo, no norte do país, após dias de confrontos com combatentes curdos entrincheirados em bairros tradicionais dessa minoria. A ofensiva, considerada a mais violenta desde a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, expõe o caráter frágil do processo político que tenta reorganizar o país após quase 14 anos de guerra civil e múltiplas intervenções estrangeiras.
Os combates concentraram-se principalmente nos bairros de Sheikh Maqsud e Ashrafieh, de maioria curda. Segundo as Forças Democráticas Sírias (FDS), a retirada de seus combatentes só foi possível após um acordo mediado por atores internacionais, com objetivo de cessar hostilidades e permitir a evacuação de feridos, civis e corpos de combatentes mortos. A agência estatal Sana confirmou que os últimos ônibus deixaram a cidade ainda durante a noite.
O episódio ocorre enquanto as negociações para implementar o acordo firmado em março de 2025 permanecem travadas. O pacto prevê a integração das instituições civis e militares administradas pelos curdos à estrutura estatal síria. Para analistas regionais, no entanto, a disputa por autonomia local, recursos e poder militar permanece no centro das tensões.
A retirada forçada desencadeou reações de indignação no nordeste, especialmente na cidade curda de Qamishli, onde centenas de moradores recepcionaram os combatentes com discursos emocionados e promessas de vingança. Palavras de ordem contra o atual presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, ecoaram entre os manifestantes, que acusam o governo de perseguição e de violar compromissos assumidos após a queda de Assad.
Em Aleppo, a retomada militar reviveu memórias da fase mais intensa da guerra, especialmente entre 2012 e 2016, quando rebeldes e tropas governamentais disputaram bairro a bairro a antiga capital econômica da Síria. Moradores relataram saques, danos estruturais nas residências e prisões de jovens curdos. A imprensa local também noticiou que centenas de pessoas fugiram da cidade, temendo represálias.
A repressão a minorias tem sido citada por organizações internacionais como um dos maiores entraves ao processo de reconstrução institucional. Em meio às incertezas, os curdos reafirmam a demanda histórica por um modelo de autogestão descentralizada no norte e nordeste do país, regiões onde controlam infraestrutura energética vital para a economia síria.
Redação
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