Pecuária brasileira avança rumo à descarbonização e pode reduzir até 92% das emissões, aponta FGV
Um novo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), divulgado durante a COP30 em Belém (PA), reforça a tese de que a pecuária brasileira maior exportadora de carne bovina do mundo pode se tornar peça central na transição climática global. A pesquisa, realizada em parceria com a ABIEC, projeta que o setor pode reduzir quase 80% das emissões de CO₂ até 2050 apenas mantendo o ritmo atual de ganho de produtividade e de expansão ordenada das pastagens.
Mas o número pode ser ainda mais expressivo: a redução pode chegar a 92,6% se houver avanço em políticas públicas, adesão massiva ao Plano ABC+ e implementação de técnicas regenerativas e de baixo carbono.
Produtividade como motor da redução
O estudo chama atenção para um dado pouco discutido no debate público: desde 1990, a pecuária brasileira aumentou 183% sua produtividade enquanto reduziu em 18% a área de pastagens, o que significa produzir mais ocupando menos espaço.
Se esse ritmo continuar, a emissão por quilo de carne cairá de 80 kg de CO₂ para 16 kg uma queda de quase 80%.
Os quatro cenários analisados
A FGV projetou quatro cenários de descarbonização possíveis para o setor:
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Tendência atual
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Continuidade dos ganhos de produtividade
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Redução de 79,9% nas emissões
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Desmatamento zero até 2030
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Cumprimento da meta federal
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Redução de 86,3%
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Adoção plena do Plano ABC+
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Recuperação de pastagens degradadas
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Expansão de sistemas integrados (lavoura-pecuária-floresta)
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Redução de 91,6%
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Solução completa de baixo carbono
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Todos os itens acima
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Aditivos alimentares, abate precoce e ganho de eficiência
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Redução de 92,6%
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Políticas públicas: o ponto de virada
Apesar do protagonismo crescente do setor, o estudo aponta que atingir a projeção mais favorável depende diretamente de políticas públicas robustas e coordenadas.
Entre as prioridades citadas estão:
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combate efetivo ao desmatamento ilegal;
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rastreabilidade total do rebanho (PNIB e AgroBrasil+Sustentável);
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ampliação de certificações estaduais como Selo Verde e programas de integridade;
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linhas de financiamento para acelerar práticas sustentáveis e sistemas integrados.
Sem esse “binômio”: regulação firme + incentivo econômico, o potencial não se converte em resultado.
O que está em jogo
A pecuária aparece como um setor-chave para que o Brasil cumpra suas metas no Acordo de Paris. Se conseguir ampliar a produção e, ao mesmo tempo, reduzir drasticamente as emissões líquidas como mostram as projeções o país pode se posicionar como líder global em proteína de baixo carbono.
Para Camila Estevam, pesquisadora do FGV Agro, o estudo revela “um setor que pode crescer, descarbonizar e ainda apoiar as metas climáticas nacionais”. Roberto Perosa, da ABIEC, reforça o alerta: “O potencial é enorme, mas a responsabilidade também”.
Fonte: Metropolis