Movimento criado e aperfeiçoado em Roraima se tornou símbolo das quadrilhas juninas e já levou a cultura do estado para outros países
O movimento das saias longas que encanta o público durante as apresentações de quadrilhas juninas ganhou oficialmente um novo status em Boa Vista. O Giro de Saia Roraimense passou a integrar o Patrimônio Cultural Imaterial do município, em reconhecimento à sua importância para a identidade cultural de Roraima.
Caracterizado por movimentos amplos e sincronizados, nos quais os dançarinos fazem as saias se abrirem em grandes círculos durante as coreografias, o Giro de Saia tornou-se uma das marcas das quadrilhas roraimenses. A expressão cultural está entre os bens materiais e imateriais reconhecidos pelo município.
Mais do que um passo de dança, o movimento representa a valorização de uma manifestação cultural construída e aperfeiçoada em Roraima ao longo dos anos.
Uma criação que ganhou identidade própria
Embora movimentos semelhantes já fossem utilizados em coreografias juninas, foi o roraimense Zenilton Ventura quem desenvolveu novas características para o Giro de Saia e ajudou a transformar a técnica em uma marca das quadrilhas do estado.
A inspiração surgiu a partir do contato com a cultura gaúcha. Ao frequentar um Centro de Tradições Gaúchas (CTG), Zenilton observou as prendas utilizando saias longas e percebeu que aquele elemento poderia ser incorporado às apresentações juninas de Roraima.
A ideia foi colocada em prática com a ajuda da mãe, que era costureira. Ela confeccionou uma saia longa para que Zenilton pudesse testar os movimentos e desenvolver uma técnica capaz de destacar a amplitude do tecido.
“Comecei a frequentar o Centro de Tradições Gaúchas (CTG) e observei as prendas usando saias longas. Foi então que pensei: ‘Vou colocar isso nas quadrilhas daqui’. Vesti a saia feita pela minha mãe e comecei a experimentar”, contou.
Segundo ele, o objetivo era fazer com que a saia se abrisse completamente durante o movimento, criando um efeito visual diferenciado.
Símbolo das quadrilhas de Roraima
Com o passar dos anos, o Giro de Saia ganhou espaço nas apresentações das quadrilhas e passou a ser reconhecido também fora do estado.
O diretor de concurso das quadrilhas, Chiquinho Santos, considera o movimento uma das principais expressões da cultura junina roraimense. Para ele, a reação do público durante as apresentações demonstra a força que a criação adquiriu.
“Quando o Giro de Saia começa nas apresentações, a resposta da arquibancada é imediata. Eles ‘enlouquecem’. Os quadrilheiros de outros estados ficam curiosos e perguntam como é feito”, relatou.
Chiquinho compara a manifestação a uma espécie de exclusividade cultural de Roraima.
“Eu costumo dizer que o Giro de Saia é a jabuticaba de Roraima, algo que nasceu e se consolidou aqui”, afirmou.
Movimento também marcou competições nacionais
A força do Giro de Saia também pode ser observada em apresentações realizadas fora de Roraima. Em 2015, o movimento foi um dos elementos utilizados pelo ex-quadrilheiro Gilberto Garcia, que interpretou a personagem Gibrielly D’Bruxelas no concurso de Rainha da Diversidade da Confederação Brasileira de Quadrilhas Juninas (CONFEBRAQ).
A apresentação ocorreu no Ceará e teve o Giro de Saia como um dos principais diferenciais da performance. Segundo Gilberto, a coreografia foi planejada para provocar surpresa no público.
“A coreografia foi pensada para surpreender e gerar expectativa no público. A apresentação aconteceu no Ceará e, para o público de lá, aquilo era algo inovador”, contou.
A estratégia deu resultado. A reação da plateia contribuiu para uma apresentação marcante e, posteriormente, para a conquista do título.
Cultura roraimense além das fronteiras
O Giro de Saia também ajudou a levar as manifestações culturais de Roraima para o cenário internacional.
Em 2014, integrantes do movimento junino do estado participaram de uma programação em Nova York, nos Estados Unidos. Ao todo, 20 artistas representaram o Brasil em ações de divulgação relacionadas à Copa do Mundo.
A participação ocorreu a convite da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), e as quadrilhas roraimenses apresentaram elementos da cultura local ao público internacional.
O Giro de Saia esteve entre os diferenciais apresentados pelo grupo e contribuiu para destacar Boa Vista e Roraima durante a programação.
Patrimônio cultural e preservação da memória
O reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial de Boa Vista representa, portanto, não apenas uma homenagem ao movimento, mas também uma forma de valorizar os artistas, quadrilheiros, costureiras, coreógrafos e demais profissionais que ajudaram a construir essa tradição.
A trajetória do Giro de Saia demonstra como uma criação incorporada às apresentações juninas conseguiu adquirir características próprias e se transformar em uma expressão reconhecida como parte da identidade cultural de Roraima.
Ao entrar oficialmente para o patrimônio cultural do município, o movimento passa a ter sua história e seu significado ainda mais valorizados, reforçando a importância da preservação das manifestações que ajudam a contar a história de Boa Vista e de seus moradores.
O Giro de Saia Roraimense, que começou como uma inovação nas coreografias juninas, hoje representa a criatividade, a tradição e a identidade cultural de Roraima.
Fonte: SEMUC