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Boa Vista - RR, 24 de março de 2026 as 18:33

Crise no Irão agrava-se e atinge até apoiantes do regime

ATTA KENARE / AFP

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Inflação elevada, moeda desvalorizada e falta de bens básicos impulsionam protestos em massa, segundo especialistas e relatos locais

O Irão enfrenta uma das mais graves ondas de contestação social dos últimos anos, impulsionada por uma crise económica profunda que já atinge inclusive setores tradicionalmente alinhados ao regime. De acordo com a especialista Lenka Hrabalova, o descontentamento espalhou-se por toda a sociedade iraniana, com famílias a lutarem para comprar produtos básicos, como carne, e a verem as suas poupanças perderem valor rapidamente.

Os protestos começaram a 28 de dezembro, em Teerão, quando comerciantes do Grande Bazar fecharam as lojas em reação à forte desvalorização do rial. A moeda iraniana sofreu um colapso acelerado nos últimos anos, passando de cerca de 20 mil riais por dólar para mais de 1,4 milhão, o que elevou drasticamente o custo de vida. Segundo dados citados por meios de comunicação internacionais, a inflação oficial ronda os 42%, mas os preços dos alimentos subiram mais de 70%, com alguns produtos a ultrapassarem aumentos de 100%.

Além da alimentação, o preço dos combustíveis também é motivo de tensão. Embora o governo mantenha subsídios para evitar novos distúrbios, introduziu recentemente um terceiro nível tarifário para grandes consumidores, elevando os custos para parte da população. Paralelamente, a proposta de orçamento com aumento de impostos sobre comerciantes e empresários agravou o clima de insatisfação, sobretudo num contexto de sanções internacionais e receitas limitadas do petróleo.

As manifestações, inicialmente motivadas por reivindicações económicas, rapidamente assumiram um caráter político. Em várias cidades, incluindo Isfahan, Mashhad e Shiraz, surgiram slogans contra a corrupção, a inflação e a liderança do país. De acordo com a especialista, não há uma liderança centralizada, mas uma articulação espontânea por meio das redes sociais, o que dificulta a repressão total dos protestos.

Fatores externos também pesam sobre a crise. As sanções impostas após o fim do acordo nuclear, reforçadas com o regresso da política de “pressão máxima” dos Estados Unidos, aprofundaram o isolamento financeiro do Irão. A isso somam-se problemas estruturais, como a corrupção, a má gestão e uma seca severa que ameaça o abastecimento de água em grandes cidades.

Para Hrabalova, o momento é particularmente sensível porque o empobrecimento afeta agora até apoiantes do regime, criando um cenário de tensão generalizada. Apesar da repressão em curso, muitos iranianos veem nos protestos um sinal de que mudanças são inevitáveis, ainda que o futuro político do país permaneça incerto.

Redação

Referência: https://www.swissinfo.ch/por/