Plantando informação de qualidade.

Boa Vista - RR, 4 de novembro de 2026 as 02:47

Unesco registra 189 jornalistas mortos no mundo em 2024 e 2025

Compartilhe:

Número é o maior desde o biênio 2014/2015; conflitos armados concentraram 67% dos assassinatos, segundo relatório da organização

Um total de 189 jornalistas foi assassinado em diferentes países durante os anos de 2024 e 2025, segundo levantamento divulgado nesta segunda-feira (2) pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O número representa o maior registro de mortes desde o biênio 2014/2015, quando 215 profissionais perderam a vida.

De acordo com o Relatório sobre a Segurança de Jornalistas e o Perigo da Impunidade, 127 assassinatos ocorreram em países considerados zonas de conflito, o equivalente a 67% do total. O número representa um aumento de 24% em comparação com o biênio 2022/2023.

Entre os casos registrados em áreas de conflito, 50 jornalistas foram mortos em ataques com drones. Outros 36 morreram em ataques contra escritórios de veículos de comunicação ou instalações que abrigavam profissionais da imprensa. Em um dos episódios, nove jornalistas perderam a vida em um único ataque.

O documento também identificou pelo menos 15 situações em que há indícios de que profissionais tenham sido alvejados mesmo utilizando coletes com a identificação de “imprensa” ou estando em veículos claramente identificados como pertencentes a jornalistas.

Assassinatos fora de zonas de conflito

Fora das áreas de conflito, foram registrados 62 assassinatos de jornalistas no biênio 2024/2025. Segundo a Unesco, esse é o menor número em 18 anos.

Entre esses casos, 17 profissionais foram mortos em seus escritórios, 33 em veículos e 20 em suas próprias casas. Em algumas ocorrências, familiares também foram assassinados.

O levantamento aponta ainda quatro mortes em ataques terroristas e sete durante manifestações, envolvendo ações de manifestantes ou de forças policiais.

A pesquisa também identificou os assuntos que os profissionais cobriam no momento dos assassinatos. Ao todo, 104 mortes ocorreram durante a cobertura de conflitos armados. Outras 38 envolveram jornalistas que trabalhavam com pautas políticas e 22 estavam relacionadas à cobertura de atividades criminosas. Também foram registrados assassinatos de profissionais que investigavam corrupção.

Para a diretora de Liberdade de Expressão e Desenvolvimento da Mídia e Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco, Sylvie Couldray, os dados mostram que a cobertura de determinados assuntos pode representar riscos semelhantes aos enfrentados em zonas de guerra.

“Isso mostra que fazer reportagens sobre alguns assuntos pode ser tão perigoso quanto reportar em uma zona de guerra”, afirmou.

Palestina concentra maior número de mortes

A Palestina foi o território com o maior número de jornalistas assassinados no período, com 62 mortes, aproximadamente um terço do total mundial. Desde 2023, a região enfrenta ataques das forças israelenses.

O relatório também apresenta dados sobre o perfil das vítimas. Entre os 189 profissionais assassinados, cinco tinham entre 15 e 24 anos e 20 estavam na faixa etária de 25 a 29 anos.

Quatorze mulheres foram mortas, o equivalente a 7% do total. Segundo a Unesco, esse foi o menor percentual registrado desde o biênio 2012/2013. Treze dessas jornalistas foram assassinadas em países classificados como zonas de conflito.

Brasil registra uma morte de jornalista

No Brasil, o levantamento contabilizou um assassinato de profissional da imprensa no período. A vítima foi Luís Augusto Carneiro da Costa, conhecido como Luisinho Costa, morto em maio de 2025 no estúdio da Rádio Guarany, em Abaetetuba, no nordeste do Pará.

Segundo a Polícia Civil do Pará, o inquérito foi concluído e encaminhado à Justiça, com quatro pessoas indiciadas.

Impunidade chega a 86% dos casos

Além das mortes registradas nos últimos dois anos, o relatório chama atenção para a impunidade nos crimes contra jornalistas. Desde 2006, 1.641 profissionais foram assassinados em todo o mundo. Desse total, apenas 223 casos foram solucionados pelo sistema judiciário, o equivalente a 14%.

Outros 1.013 assassinatos, correspondentes a 66%, continuam sem solução, com processos em andamento ou sem conclusão. Em 321 casos, cerca de 20%, a Unesco não recebeu respostas das autoridades responsáveis.

A organização informa que o índice de impunidade, considerando os casos não solucionados e aqueles sem resposta das autoridades, chegou a 86% em 2026. O percentual representa aumento de um ponto em relação a 2024 e foi a primeira elevação registrada desde 2012.

Para a diretora de Comunicação e Informação da Unesco, Mariya Gabriel, o relatório contribui para acompanhar as tendências mundiais e reforça a importância de proteger jornalistas e combater a impunidade.

“O relatório é uma ferramenta importante para monitorar as tendências globais, além de nos lembrar que proteger jornalistas e acabar com a impunidade são essenciais para salvaguardar a liberdade de expressão e o direito do público à informação”, afirmou.

Violência contra jornalistas vai além dos assassinatos

A Unesco ressalta que os assassinatos representam apenas uma parte dos riscos enfrentados pelos profissionais da imprensa. Jornalistas também estão sujeitos a sequestros, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias, ataques online motivados por gênero e restrições à liberdade de circulação.

Para elaborar o levantamento, a organização entrou em contato com autoridades de 78 países que registraram casos de violência contra jornalistas. Desse total, 38 forneceram informações sobre medidas adotadas para proteger os profissionais e combater os crimes.

O Brasil informou à Unesco a adoção do Protocolo Nacional para a Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, lançado em abril de 2026 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A iniciativa foi incluída no repositório de mecanismos nacionais de segurança da organização.

Os dados reforçam a dimensão dos riscos enfrentados por jornalistas em diferentes partes do mundo e a necessidade de medidas efetivas para garantir a segurança dos profissionais e a liberdade de imprensa.

 

Fonte: Agência Brasil