País investe em IA e código aberto para conquistar soberania digital diante da influência de Microsoft, OpenAI e outras big techs
A busca por maior autonomia digital tornou-se um tema estratégico na Suíça. Mesmo após investir milhões em infraestrutura de inteligência artificial e lançar iniciativas próprias, como o modelo aberto Apertus, o país enfrenta o dilema de ainda depender fortemente de tecnologias desenvolvidas por grandes corporações norte-americanas.
Dados recentes indicam que cerca de 75% das empresas suíças utilizam plataformas de IA estrangeiras, entre elas o ChatGPT e o Copilot da Microsoft, principalmente para geração de texto, automação e análise de dados. Essa dependência não se limita ao setor privado: parte significativa da administração pública também recorre a softwares proprietários de grandes fornecedores tecnológicos dos Estados Unidos, especialmente a Microsoft.
A crescente preocupação com soberania digital ganhou força após alertas de autoridades militares e especialistas. O chefe do Exército suíço, Thomas Süssli, chamou atenção para possíveis riscos à segurança nacional ao armazenar documentos governamentais em nuvens corporativas sediadas no exterior. Segundo ele, tais dados podem estar sujeitos a leis e interesses estrangeiros.
Para especialistas como Matthias Stürmer, da Universidade de Ciências Aplicadas de Berna, a Suíça possui condições técnicas e acadêmicas para reduzir essas dependências. Segundo Stürmer, investir uma fração dos valores pagos às big techs em soluções locais poderia fortalecer o ecossistema de código aberto do país. O governo já deu passos nesse sentido ao financiar o supercomputador Alps e apoiar a Swiss AI Initiative, que se tornou referência continental pela transparência.
Entretanto, há divergências sobre o alcance real dessas iniciativas. Marcel Salathé, especialista da EPFL, afirma que o controle global da IA permanece concentrado em poucos países, principalmente China e Estados Unidos, que dominam chips, dados e infraestrutura de nuvem em larga escala.
Mesmo diante das incertezas, a Suíça observa um cenário internacional favorável ao desenvolvimento de modelos soberanos. Países como Cingapura, Espanha e Suécia já trabalham com ecossistemas próprios, e pesquisadores defendem que alianças transnacionais podem acelerar a autonomia tecnológica. Para o engenheiro Joshua Tan, os avanços recentes mostram que a soberania digital deixou de ser uma utopia e começa a se tornar prática concreta.
Redação
Referência: https://www.swissinfo.ch/por/