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Boa Vista - RR, 23 de março de 2026 as 23:08

“Não sou herói”, diz sobrevivente em Hong Kong

William Li

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Tragédia em Hong Kong: sobrevivente transforma dor em apelo por justiça após incêndio que matou 159 pessoas

Por semanas, William Li, 40 anos, tem sido chamado de “herói” em Hong Kong. Mas para ele, esse rótulo pesa mais do que conforta. O morador do Tribunal Wang Fuk salvou vizinhos durante o incêndio que destruiu o complexo de sete torres residenciais e deixou ao menos 159 mortos, no pior desastre do tipo na cidade em mais de sete décadas.

“Meu coração se parte toda vez que me chamam assim”, disse, às lágrimas. “Eu só consigo pensar em quem não consegui salvar.”

Enquanto equipes de resgate ainda procuram pelos restos mortais de cerca de 30 desaparecidos, uma série de falhas estruturais e administrativas começa a vir à tona  e aumenta a revolta dos moradores.


As falhas que agravaram a tragédia

A tragédia, que ainda está sob investigação de um comitê independente criado pelo governo local, expôs problemas graves na gestão do condomínio e nas normas de segurança:

  • Redes externas inflamáveis foram instaladas durante obras, facilitando a propagação das chamas.

  • Alarmes de incêndio falharam em todos os blocos, impedindo que moradores fossem alertados.

  • Há relatos de que saídas de emergência estavam trancadas algo que ainda não foi esclarecido pela administradora responsável, uma subsidiária da empresa dinamarquesa ISS.

Foi justamente a ausência de alarmes que fez William minimizar o alerta inicial feito pela esposa:

“Achei que não era grave. Perdi quase 10 minutos arrumando minhas coisas.”

Quando finalmente abriu a porta, encontrou o corredor tomado por fumaça espessa e nenhuma rota segura.


Coragem em meio ao caos

Sem poder fugir, William transformou seu apartamento em abrigo improvisado. Colocou toalhas molhadas sob a porta para conter a fumaça e, ao ouvir vozes no corredor, arriscou-se para resgatar dois vizinhos.

Em outra torre, uma cena semelhante:
Bai Shui Lin, 66 anos, alertou famílias batendo de porta em porta e salvou vários vizinhos  mas não sobreviveu. Seus filhos reconheceram o corpo dias depois.

Também houve atos heroicos entre trabalhadores domésticos estrangeiros, muitas vezes invisibilizados na sociedade de Hong Kong.
Nove indonésias e uma filipina estão entre os mortos.
A filipina Rhodora Alcaraz, 28, sobreviveu após proteger o bebê e a idosa de quem cuidava, enviando mensagens de despedida à irmã enquanto lutava para respirar.

 


Horas de desespero e uma fuga improvável

Encurralados, William e o casal de vizinhos  os Chows  esperaram por horas enquanto explosões ecoavam e as chamas bloqueavam todas as rotas conhecidas de fuga.

“Foi a primeira vez que senti que a morte tinha algo a ver comigo”, relata.

Quando finalmente foram resgatados por bombeiros com escadas aéreas, William insistiu que os vizinhos fossem retirados primeiro.

Mais tarde, ao chegar ao hospital, a exaustão emocional explodiu:

“No pronto-socorro, meus joelhos simplesmente cederam. O cheiro de queimado não saía do meu nariz.”


Trauma, culpa e a busca por respostas

Desde a alta médica, William tem dado entrevistas quase diariamente. É sua forma de enfrentar o trauma  e de exigir responsabilidade.

“Espero que muitas pessoas venham ajudar a descobrir a verdade. Os moradores do Tribunal Wang Fuk merecem respostas e justiça.”

A investigação deve levar semanas, mas a pressão da sociedade civil aumenta sobre:

  • as empresas responsáveis pelas obras;

  • a administração do condomínio;

  • o governo local, que autorizou o uso das redes que aceleraram o incêndio.

A tragédia expõe, mais uma vez, as vulnerabilidades de moradias populares em Hong Kong  e levanta questionamentos sobre negligência, regulamentação falha e desigualdade estrutural.

Fonte: BBC